Fez ontem 32 meses desde a ultima vez que te vi e ainda não acredito que nunca mais o irei fazer. Passou mais um natal em tua casa. Um natal sem o teu cheiro, sem o teu prato na mesa, um natal de sofá vazio e ar tenso. Odeio os natais sem ti, e passei a odiar o próprio natal ainda mais. 
Tenho saudades tuas, saudades de escrever sobre e para ti. Dou por mim constantemente a ter-te como tema das minhas conversas, como se isso alivia-se a dor que ainda sinto, como se isso te deixasse mais vivo. Falo de ti porque tenho a constante necessidade de sentir o bater do coração quando turbilhões de memórias surgem cada vez que pronuncio o teu nome. Gostava que estivesses comigo neste momento, gostava que acompanhasses esta etapa da minha vida que tanto desejavas e partiste sem avisar, sem ficar cá para me apoiar. Chama-me louca, mas eu sei que estás feliz por eu ter ficado colocada na tua terra de sonho, no lugar onde sempre desejaste viver. Coincidência ou não agora moro em frente à casa que um dia quiseste comprar. Ás vezes penso que se o tivesses feito o teu destino poderia ter tomado outro rumo e dou por mim numa espiral de tortura na procura de alternativas que pudessem ter alterado o teu fado cruél. Ás vezes sinto que levaste metade do meu coração contigo. Sinto-me incompleta, como se nada do que faço conseguisse preencher o vazio que tenho no peito. Aindo hoje me culpo por te ter abandonado quando ficaste as tuas duas ultimas semanas acamado e já sem movimentos, mas perdoa-me por ter sido fraca e ter medo de não aguentar ver-te assim. Mas tal como me culpo a mim, culpo-te a ti por não teres esperado por mim, por não teres esperado que eu me despedisse e dissesse o quanto te amo e devia ter dito sempre que o quis, por teres partido no dia em que o quis fazer e foi tarde de mais. Pergunto-me o quão estarás zangado comigo, sei bem como eras igual a mim. 
Perdoa-me por não te conseguir visitar no teu lugar, por não conseguir estar diante ti e saber que não te posso ver ou sentir, saber que não te posso ouvir. Não sou tão forte quanto pensas que sou. Nem sei se algum dia serei. 
Dizem que o tempo cura tudo, mentira. O tempo só piora. Apaga, a cada dia que passa, o som da tua voz, os traços do teu rosto, apaga o teu cheiro e leva-o para bem longe do que a mente humana consegue alcançar. Na parede tenho a ultima fotografia que tirámos juntos quando já tudo se desmoronava dentro de ti. Penso em ti sempre que vou fazer algo importante, sempre que preciso de um anjo da guarda que me ajude, penso em ti sempre que tenho medo e sinto que o mundo à minha volta não me pertence, que o chão diante de mim é um abismo. Penso em ti todas as noites antes de adormecer porque és tu que me dá força para querer acordar nos dias cinzentos e nas manhãs frias quando tudo o que mais quero é dormir e encontrar-te algures.

Desculpa-me pelas lágrimas, mas a saudade que não cabe no coração verte pelos olhos. Amo-te avô.

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